quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Carta 2

Teresa,
Entre as árvores de laranjeiras tive a impressão de ouvir sua voz. Aos sussurros, através do farfalhar dos galhos pelo vento, falava-me sobre culpa e sobre tudo o que eu poderia ter sido. Parecia também sofrer pela falta do que nunca houve e do que nunca fui. Poderia ter certeza de que estava você mesma entre as árvores, iludindo a natureza com sua pequena estrutura física, mera dissimulação que seduz e engana, escondendo toda a sua força imponente. Erguia-se com sutil tristeza franzindo o rosto, mirando estática minha miserabilidade. Talvez eu não a tenha ouvido de fato e tudo não tenha passado de um sonho. Como o que recorrentemente vivo, em que a observo ao longe subindo o morro de bonde. De onde fico, com custo sou capaz de ver sua quase indecente nuca, tentando meu despudor para uma visão maior que nunca ocorre. Nada além do tronco balançante, de costas, cabelos e nuca, sobressaindo-se ao banco de madeira. Como se a tivessem furtado a face e apenas suas costas existissem pra mim. Ao acordar, entre a tristeza de notar que no mundo real a distância entre nós é significativamente maior, a alegria de saber que seus olhos castanhos ainda se alinham perfeitamente às delicadas narinas e à boca. Mesmo que apenas na pintura que permanece presa à parede da sala.
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Houve um problema com um negro que buscava água na Bica da Rainha. Foi atropelado pela carroça do Boticário e sofreu feridas fatais. No princípio, pensamos que se salvaria, acometido apenas pela amputação dos membros inferiores. Sentindo-se culpado, o Boticário fez questão de hospedar o negro em sua casa e pessoalmente ocupou-se de seus cuidados. Morava próximo ao local do acidente, o que facilitou seu transporte e favoreceria o tratamento. Todavia, apesar de seus esforços, em vão. Grande constrangimento ao fisiologista que acabou por decidir ocultar o corpo. Temia por reações dos negros e por sua reputação como curandeiro. Acabou enterrando-o no quintal. O corpo encontrava-se em condições deploráveis, em princípio de putrefação, tendo a fedentina contaminado todo o ambiente.
Considerara arremessar o negro ao rio, e por isso veio até mim se aconselhar. Disse-lhe que seria mais prudente enterrar a carcaça bem fundo e esquece-la. De outra forma, caso a jogasse na correnteza, poderia contaminar nossas águas. Além disso, adverti que simulasse uma fuga.
Acreditei que pudesse ter sido o melhor, afinal, o Boticário invariavelmente presta serviço fundamental à comunidade, e não poderia macular-se por um infortúnio casual. Uma pena perder um animal tão nobre para propulsão orgânica das engrenagens da cidade. Mesmo assim, nada além disso. O remorso somente seria conveniente em casos de uma perda mais significativa.  Um se vai, mas nós criamos outros. O negro era força bruta pura, mas nenhuma cabeça. Já um boticário competente não se encontra facilmente por aí.
Foram dez palmos de terra a cobri-lo, apesar da dificuldade em função da irregularidade do terreno. O intuito era impedir qualquer contaminação. Entretanto, talvez não tenha sido suficiente. Foi notado que logo após seu soterramento, as plantas ao redor começaram a morrer. Temo que esteja em curso uma infecção do solo e que alcance as plantações. Precisaremos agir rápido, se é que será possível conter a moléstia, especialmente se a temporada de chuvas começar. Às vezes, esperamos que enterrando fundo o morto, estejamos à salvo de sua presença. Somos tolos?
Os empregados estão assustados. Dizem que o negro é visto arrastando-se pela noite sobre pernas dilaceradas. Contam que está preso entre a vida e a morte, como se tivesse perdido o caminho do outro mundo, e permanece em transe. Já os tentei acalmar dizendo que são apenas crendices, mas sempre reagem com indignação. Estou providenciando o esconjuro do sítio, muito mais pela encenação do que por crer que possa ter algum efeito mágico. Este é o jeito de acalmá-los. Os fantasmas só existem para quem acredita neles.
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Por hora, não encaminharei esta carta. Confesso que não é a primeira que lhe escrevo. A gaveta da cômoda está cheia delas. Em geral, realizo todo o ritual: preparo a caneta, escolho o papel, escrevo a carta e assino. Envelopo e selo. Porém, falta-me algo para encerrar o projeto enviando-as. E enquanto não conquisto o que não se acha, tenho-as guardadas. Já não cabem mais neste quarto e não sei o que fazer, quando o vejo inundar-se de envelopes lacrados. 

Um comentário:

  1. Às vezes acreditamos que, enterrando fundo a culpa, a tristeza ou o amor, eles sumirão. Que ilusão! Sempre se criarão raizes do seu pé, como ervas daninhas, que impede o crescimento da vida.

    Não sei o porquê, mas sinto que essas cartas estão cada vez mais próximas de mim, mesmo que ainda na gaveta. Já consigo perceber uma ligação com elas, como se elas me contassem, em segredo, tudo o que querem gritar ao mundo. As sinto cada vez mais próximas.

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