quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Era noite

Era viela estreita em ladeira escura descendo o morro em curvas.
Era noite suave e úmida da luz laranja amarela dos postes raros.
Sem nuvem no céu a estrela azul oscilava anunciando outros mundos.
E os meninos sedentos de vida caminhavam sem medo pela madrugada:
Vampiros de olhos brilhantes e arregalados e sorrisos escancarados.
Dava para escutar os corações batendo à distância... Dava vontade de chorar e sorrir.
E, súbito, no muro a imagem do cavaleiro e do dragão gravada no concreto.
O brilho do isqueiro bic do jornaleiro redesenhava as linhas no escuro.
E fez, ao final, as vezes do fogo do dragão ferido sob a lança aguda.
Seu sangue escorria pelo muro e se entranhava entre rachaduras.
E desaguava no rio misterioso da carioca.
Passos ligeiros. Um a um desceram os degraus do largo do boticário.
O rumor do rio. O túnel negro. O breu sem fim.
Mas era certo que um peito arfava e bufava. Era certo.
E um calor queimava rio abaixo e soprava vapor denso.
Já se esboçava nas sombras antigas o contorno da besta ofegante.
Eles se olhavam e se sorriam. Corações pululando de coragem.
Mas quem ousaria dar mais um passo?

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