segunda-feira, 28 de novembro de 2011

[...] donde tirava seus fantasmas [...]

Contava-me o alemão, pelas palavras doutro que ele fingia - e muito bem -, a história doutro homem do passado - do tempo do preto e branco prateado -, fotógrafo de rua e das cavernas salas escuras, donde tirava seus fantasmas - um homem cujo corpo, tomado de cinza-grafite, reluzia no breu: ele mesmo, agora, um fantasma prateado. Sentávamos, eu e o alemão, à beira do chafariz do Largo do Machado da minha infância - de onde emergiu o senhor calvo e grisalho, de bigodes largos e amarelos de cigarro, com sua caixa-mágica de madeira sobre o tripé também de madeira, coberta a caixa, por todos os lados, de três-por-quatros, a oferecer-nos uma fotografia. Aceitamos a oferta, mas pedimos que o nosso retrato se juntasse aos demais colados na caixa - e ficasse ali a nos guardar.

3 comentários:

  1. Viu os olhos dele? Não? Seus olhos reluziam à prata... E ao fundo, na retina, misturavam-se mil milhões de rostos antigos, cujos olhos miravam certeiros para mim...

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  2. A garganta me coçava e a barriga me doía... Tosse feia, seca... Da garganta me pulou uma fotografia três por quatro dum menino que eu não conhecia. Fosse ele eu e eu não explicaria, sendo ele outro não faria nada melhor. Adormeci para sonhar e pôr as coisas em seu devido lugar. Mas me perguntei se a graça do sonhar não seria acordar e recordar o sonho... Não concordei com isso. E pasmei ao imaginar uma vida em sonho sonhando com uma vida real - tão absurda e onírica. Fechei os olhos e avistei um espelho, mas lá vi um vampiro e me assustei - tinha ele os olhos fundos, cheios de fantasmas, a pele cinza-prateada e se queimou ao primeiro raio de sol; o espelho não mais refletia: era opaco, escuro. Mas reconheci minha imagem. Colei ali a fotografia três por quatro do menino inexistente, bem ao centro, para me esquecer dele para sempre, todas as vezes que me deparasse com a sua face triste.

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  3. E todas as fotografias que fazia de mim só mostravam a minha nuca, por mais que eu mirasse ao fundo do olho da lente. O fotógrafo, surpreso, pedia perdão e assumia que não podia dar explicações para o caso. Achei que ele estava já para chorar. Revelei - para acalmá-lo do desespero iminente - que aquilo era algo que me ocorrera já na infância. E sempre. O fato é que eu nunca encarei nem lente de máquina, nem olho de carne viva - e se pousei os meus no olho vítreo da câmera fotográfica, como ouso afirmar tê-lo feito, isto é simplesmente uma mentira. Mentira. Se encaro qualquer coisa, disfarço-me nuca. Não me mostro - me escondo. Meu rosto é sempre nuca - ou diria 'nunca'? Meu tórax, sempre às costas - coluna e omoplatas sempre à mostra enquanto eu observo o lado de lá p'ra trás dos p'ra lás. Vamos lá: sou tímido - carrego esse peso e esse medo de viver. Quase doentio. Se eu pudesse, se bem me fosse não tão impossível pr'além do sonho desperto, virava-me do avesso e me escondia no meu corpo - quietinho, quentinho; mas, assumo sem pudores, tenho vergonha de exibir meus órgãos internos por aí.

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