quarta-feira, 4 de maio de 2011

José

Chamavam-no José. Este era o nome de seu patrão, dono da barraquinha de cachorro-quentes em que trabalhava. Cachorro-quente do José. Muito famoso no bairro. Diziam: "Vamos comer um cachorro-quente do José?" E era costume identificar todos os vendedores com este nome. Este não ligava. Falava pouco, não tinha quase nenhum amigo. Por baixo do grande chapéu caricatura de mestre-cuca, marca registrada das barraquinhas, não se importava muito com nada. E achava que entendia de tudo menos ainda. Pensava: "Isso é coisa deles. Não é minha." Contentava-se com o desafio que considerava a preparação de  cachorros-quentes. A sua pequena arte. Seus outros prazeres eram ver as fotos das mulheres na vitrina da banca de jornal, comer melancia na feira e mergulhar no mar. Mais do que a Deus, respeitava o mar. O gosto salgado e o baque gélido das ondas contra seu frágil dorso o faziam ficar sem ar e sempre que mergulhava imaginava o canto de uma sereia o chamando. "Se puder prender mais um pouco a respiração, vou mais fundo" se desafiava. Quando deitava na cama, a noite, ainda sentia o balanço das ondas no seu corpo.

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